Já existem várias normas regulamentando o que as cantinas
podem vender, mas falar da importância da boa alimentação é papel da escola.
Todo mundo sabe da importância de comer bem: traz benefícios
para a saúde, ajuda a nos manter ativos para realizar as tarefas do dia a dia e
melhora até o humor. Uma alimentação saudável é aquela que reúne todas as
substâncias químicas de que o corpo precisa para funcionar corretamente. Requer
muita diversidade de ingredientes em todas as refeições, com equilíbrio entre
carboidratos, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais. Na escola, um espaço
ocupado por crianças e jovens, isso se torna ainda mais relevante. Porém todo
mundo sabe que a oferta de alimentos saudáveis nas cantinas e lanchonetes que
funcionam dentro das escolas costuma ficar bem abaixo do desejável. Por
questões de praticidade, custo e armazenamento, é mais fácil encontrar produtos
industrializados, que têm prazo de validade maior - mas causam mais danos à
saúde que os alimentos in natura.
O domínio dos salgadinhos, doces e chocolates, porém, já é
questão de saúde pública. Em 2008, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou
uma compilação de diversos estudos sobre o tema, que mostra que o aumento do
número de crianças com excesso de peso varia de 10,8% a incríveis 33,8%
conforme a cidade ou região. Diversos outros problemas, como diabetes,
hipertensão arterial, alterações ortopédicas e elevação dos níveis de
colesterol e triglicerídeos, têm se tornado frequentes entre a garotada.
O papel da escola
"O fato é que na escola se formam as bases do
comportamento no que diz respeito à alimentação", diz a nutricionista Nina
Flávia de Almeida Amorim, responsável técnica pelo projeto A Escola Promovendo
Hábitos Alimentares Saudáveis, do Observatório de Políticas de Segurança
Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília (UnB). Ela ressalta que, em
média, as crianças consomem de 25 a 33% das calorias diárias no ambiente
escolar, entre merenda e lanche, desde a hora em que chegam para a aula até o
momento em que voltam para casa.
A preocupação com esse tema fez com que muitos estados e
cidades aprovassem leis sobre o que pode (e não pode) ser oferecido nas
cantinas escolares. Em abril, a Comissão de Constituição e Justiça e de
Cidadania da Câmara dos Deputados aprovou um projeto que obriga creches,
pré-escolas e instituições de Ensino Fundamental, públicas e privadas, a
comercializar apenas alimentos saudáveis. A proposta tramita agora no Senado e,
por mais que o texto original da lei não cite explicitamente quais são os
heróis e os vilões na hora do lanche, está claro que salgadinhos,
refrigerantes, biscoitos, balas e chicletes, bem como outros produtos
industrializados ricos em gordura, açúcar e sal, entrarão na lista dos
proibidos, a ser definida pelas autoridades sanitárias.
A chance de pais, professores e alunos refletirem sobre o tema
A primeira lei sobre o assunto entrou em vigor em 2001, em
Santa Catarina. No Paraná, a regulamentação específica passou a valer em 2004.
"O grande mérito da lei foi provocar uma reflexão sobre o tema entre
professores, alunos e pais", destaca Márcia Stolarski, nutricionista da
Coordenadoria de Alimentação e Nutrição Escolar, ligada à Secretaria Estadual
de Educação do Paraná. Segundo ela, hoje é possível observar uma melhora na
alimentação das crianças, mas isso não veio de forma tranquila. "Muitos
alunos começaram a levar refrigerantes, salgadinhos e bolachas recheadas de
casa. E não só para o consumo próprio: também para vender para os
colegas."
Em paralelo, aumentou o número de vendedores ambulantes
perto das escolas. "Eles passaram a vender tudo o que tinha sido
proibido", lembra Leonilda Palmonari Metri, diretora da EE Nossa Senhora
de Fátima, em Curitiba. Além disso, caiu a receita gerada pela cantina (espaço
que, nas escolas públicas, é administrado direta ou indiretamente pela APM e
cujos recursos ajudam a financiar pequenos gastos). "No nosso caso,
perdemos cerca de 30% num primeiro momento." Curiosamente, quando havia
frutas no cardápio da merenda escolar, a aceitação era sempre boa - mas a
oferta na cantina demorou a ser bem aceita.
A importância do bom exemplo
Cleliani de Cassia da Silva, especialista em nutrição, saúde
e qualidade de vida da Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, reforça o papel da comunidade em
relação a essa questão. "Em idade escolar, todos querem os mesmos
alimentos que os colegas. Muitos têm vergonha de levar lanche de casa",
explica ela.
É por isso que bons exemplos fazem toda a diferença na
promoção da alimentação saudável. Não adianta proibir a venda de doces se os
professores mascam chicletes na frente da turma. A chave para o sucesso é a
coerência. "Só retirar os alimentos não saudáveis da cantina não muda a
situação. São necessárias ações focadas nas crianças, nos pais, nos
funcionários e assim por diante", insiste Estela Marina Alves Boccaletto,
da Faculdade de Educação Física da Unicamp.
Envolvimento de todos
Daí a importância de envolver na discussão os responsáveis
pelo preparo dos alimentos vendidos nas cantinas. A UnB mantém desde 2001 o
projeto A Escola Promovendo Hábitos Alimentares Saudáveis. Uma de suas
principais ações é capacitar os cantineiros e ajudá-los a transformar seu mix
de produtos de forma a compor um cardápio com alimentos mais saudáveis e que,
ao mesmo tempo, agucem o paladar da garotada. Nina Amorim reconhece que dá mais
trabalho fazer isso a continuar comprando salgadinhos de pacote, biscoitos,
balas e chocolates. "Mais de uma vez, fomos criticados e até agredidos
verbalmente por donos de cantinas que acham que vão quebrar com essa
mudança", conta ela. "Mas, à medida que vamos apresentando alternativas,
todos percebem que é possível trocar os itens prontos de longa validade por
opções mais saudáveis". Algumas das opções mais populares do curso são
gelatinas com pedaços de frutas, barrinhas caseiras de frutas e cereais,
sanduíches naturais (sem maionese), salada de frutas, bolos enriquecidos com
frutas e, claro, a valorização de ingredientes típicos de cada região do país,
como tapioca, açaí e milho verde.
Estela Boccaletto, da Unicamp, diz que tão importante quanto
as leis é cada escola tomar para si seu papel de valorização da Educação como
um todo. "É preciso ver as crianças e os jovens em sua plenitude e
colaborar com seu crescimento, desenvolvimento e potencial. Para que isso
ocorra, todos têm de estar preparados e ajudar os estudantes a fazer opções
saudáveis nas refeições."
Saudáveis e saborosos
Não é preciso impor sacrifícios para oferecer um cardápio
nutritivo e atraente. A chave é apresentar diferentes grupos alimentares:
Frutas: São fonte de vitaminas, potássio, fibras e
bioflavonoides (pigmentos com propriedades antioxidantes). Maçã, manga, banana,
mamão, uva e morango devem estar sempre presentes na hora do lanche.
Cereais: Ricos em fibras, os cereais matinais e as
tradicionais barrinhas ajudam a manter baixo o nível de colesterol ruim,
melhoram o trânsito intestinal e garantem a sensação de saciedade por um longo
tempo.
Pães e torradas: Oferecem energia para o organismo por serem
ricos em carboidratos, que dão a sensação de saciedade. É importante prestar
atenção na quantidade de açúcar refinado entre os ingredientes.
Sucos, água e água de coco: Hidratar-se é fundamental. A
água deve ser bebida quase gelada para facilitar a absorção. Os sucos são ricos
em minerais e eletrólitos, que prolongam a hidratação. E a água de coco, fonte
de potássio, é reidratante.
Leite e derivados: Contam com altas doses de cálcio,
fundamental para os ossos. O iogurte natural traz ainda mais proteínas. O
queijo branco tem mais cálcio que o leite. E nos queijos amarelos sobram as
vitaminas A e D.
Vilões da alimentação
Pobres em nutrientes e ricos em gordura, sódio e açúcar, os
produtos industrializados já foram banidos em alguns estados e municípios que
têm leis sobre as cantinas escolares:
Salgadinhos e frituras: O principal problema dos salgadinhos
de pacote são os altos índices de sódio, que podem provocar a elevação da
pressão arterial. Já as frituras têm muita gordura, que colabora para o ganho
de peso.
Refrigerantes e sucos artificiais: Bebidas com alto teor de
açúcar são pobres em fibras e micronutrientes. Contêm aditivos (como os corantes)
e sódio. São considerados grandes vilões do sobrepeso e de novas cáries.
Maionese, ketchup e mostarda: Além de muito calóricos, têm
altos teores de gordura total e de gordura saturada, açúcar, sódio e aditivos
químicos. Por não conter fibras nem micronutrientes (vitaminas e minerais),
podem causar a elevação da pressão arterial.
Biscoitos recheados: Como quase todos os alimentos desse
grupo, têm muitas calorias, açúcar e gorduras - e poucas fibras e
micronutrientes. A indústria vem tentando reduzir a taxa de gordura trans, um
fator de risco para doenças do coração.
Balas, pirulitos e chicletes: São alimentos com pouco ou
nenhum valor nutricional e elevado teor de açúcar. Por isso, provocam ganho de
peso e cáries. O excesso de açúcar eleva os níveis de colesterol e pode
provocar problemas cardíacos.
Chocolate: São alimentos com grande concentração de gordura,
ácidos graxos saturados e sódio. Seu consumo excessivo pode causar problemas de
saúde, como colesterol alto, excesso de peso e doenças cardiovasculares.
O que a escola pode fazer
- Definir com a Associação de Pais e Mestres (APM) o que
pode ser vendido e o que deve ser vetado na cantina e zelar pelo cumprimento do
acordo.
- Esclarecer os pais sobre a importância da boa alimentação
e estimulá-los a cuidar da rotina alimentar dos filhos.
- Trabalhar para conscientizar docentes e funcionários sobre
a necessidade de oferecer bons exemplos aos alunos.
- Incluir a alimentação saudável como um conteúdo
transversal permanente das áreas do conhecimento.
O que os pais podem fazer
- Participar do Conselho de Alimentação Escolar .
- Fazer combinados com o filho na hora de preparar o lanche
de casa, inserindo sempre alimentos saudáveis ao invés de produtos
industrializados.
- Checar os rótulos dos produtos antes de compra-los, para
checar a composição de ingredientes.
- Conversar com o filho diariamente sobre a alimentação que
recebe na escola.
- Visitar a escola no horário da merenda.
Fonte: Educar para Crescer

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